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Aconteceu num mês de julho quando eu e minha banda saímos em viagem e aportamos no estado do Paraná para fazermos alguns shows. Havíamos tocado por três noites seguidas, em três cidades diferentes e estávamos todos os três esgotados.

No dia anterior, ao fim de uma apresentação num inferninho roqueiro, eu havia bebido até alcançar o nirvana etílico e não era capaz ao menos de lembrar o meu nome. Pelo que consta nos autos, fui abordado por uma garota que, se não era a mais bonita do local, estava longe de ser a mais recatada, a qual me levou, sem possibilidades de resistência da minha parte, a sua casa, ali pelos arredores.

Fui acordado em torno das sete da manhã por Marcelo, baterista da banda, que sabia onde eu passara a noite e, suspeito, melhor que eu. Sentia-me um lixo. Como disse, havia bebido demais; tinha a cabeça vazia e um gosto horrível na boca. Meu parceiro de banda, que sabe o diabo como brotara naquele quarto, com os modos próprios dos que não tiveram mãe e não desconfiam da menor noção de carinho, arrancou-me da cama sem se importar com a garota nua adormecida ao meu lado. Tive ímpetos de acordá-la e me apresentar formalmente, Marcelo achou desnecessário e desnecessário também eu me vestir. Então, jogando um cobertor sobre a minha nudez, arrastou-me até a Pampa, nosso pouco confiável meio de transporte nessa época de vacas esqueléticas.

Maurício, o guitarrista, dormia com a cara espremida contra o vidro da porta do carro. Empurrei-o para o centro do banco e me acomodei como pude. Era hora de voltarmos a nossa cidade. Havíamos dormido todos naquela casa onde, além da garota que me fez companhia, moravam outras da mesma espécie. Isso me fez rir um tanto e, num sentimento pueril de alívio, pensar que seria terrível acordar com os meus amigos de banda e mais uma garota do qual o nome eu nem tinha ciência, todos nus numa mesma cama.

Dentro do carro, sofrivelmente nos espremíamos os três na cabine apertada, ainda assim, apesar do desconforto, mal me pus dentro da Pampa, adormeci, acordando somente às nove da manhã. O sol estava alto no céu, fazia arder minhas vistas, minha cabeça doía como se dentro dela uma rumba animasse o balé frenético de uma manada de elefantes. Minha boca estava seca e a pouca saliva que conseguia engolir era amarga feito bílis. Senti um peso sobre mim. Maurício, com a cabeça pendida sobre o meu ombro, babava rios de um líquido branco e viscoso. Enojado, afastei-o e gemi num fio de voz:

-Preciso de café…

-Precisamos é de combustível. Logo paramos num posto de gasolina. – disse Marcelo, sem tirar os olhos da estrada.

Um parágrafo para Marcelo. Esse nosso baterista, Marcelo, era policial. Tirara férias unicamente para que pudéssemos viajar e fazer alguns shows fora do nosso estado. Estava longe de ser o mais sério e responsável dentre nós, porém, à falta de atributos que a esses ao menos se avizinhassem, redimia-se com a admirável qualidade de poder beber feito um marujo e ainda ser capaz de assumir com firmeza o volante do carro. No momento, parecia sóbrio. Sob os óculos, de armação grossa e escura, mantinha os olhos bem abertos, falava com clareza, mas não erro ao afirmar que estava tão lesado quanto eu, ou pior. No entanto, era ele que nos guiava e esse tipo de pensamento negativo não era boa coisa naquela rodovia tão movimentada.

Paramos dois quilômetros à frente, num posto de gasolina. Reconheci a espécie do estabelecimento pelas três bombas de combustível. Sem essas, o lugar se assemelharia mais a um galpão abandonado de pós-guerra. Estava todo em ruínas. Pneus amontoados, frascos de óleos jogados por todos os cantos, um cheiro azedo de mofo misturado a forte odor de gasolina. Num canto do curto pátio, uma Belina de cor azul-claro jazia triste em sua decrepitude metálica. Olhando em redor, descobri um boteco. Na falta de uma loja de conveniência, com convenientes máquinas de bebidas expressas, decidi ali mesmo beber algum café.

Ainda estava nu, apenas enrolado no cobertor, então, estiquei um braço até a parte de trás do carro e enfiei a mão na primeira bolsa que tateei. De dentro dela, resgatei uma bermuda, colorida, estampada com flores, muito em moda à época. Não era minha; eu jamais usaria algo tão cafona, mas, naquela cidadezinha de interior perdida no mundo, sem nome ou café espresso, por que me importar? Revesti minhas coxas magras com flores primaveris. Debaixo do banco havia uma blusa de agasalho, rosa, desbotada, no peito, um enorme desenho do rosto de Minnie, aquela da Walt Disney, putinha do Mickey. Blusa de mulher. Da mulher de Marcelo, decerto. Estava ali apenas para que limpássemos os pára-brisas que se embaçavam a toda a hora com a umidade. Achei-a confortável. Apropriei-me de algumas moedas esquecidas no console do painel do carro, peguei um único cigarro, um isqueiro, pus nos pés um par de chinelos de dedo e saí do veículo.

Fazia um frio de petrificar cachoeiras e um vento enfezado bagunçava a minha longa cabeleira, embaraçando os fios ensebados. Notei olhares sobre mim. A alguns passos, um velhinho de espessa barba mal cuidada e um garoto com cara de bobo, a esfregar as mãos com um pedaço de estopa imunda de graxa, fitavam-me aparvalhados. Presenteei-os com um jovial “bom-dia” e, à falta de resposta, dirigi-me ao botequim.

Entrei. O lugar tinha também o indefectível fedor de mofo que tomava os ares de fora, com a diferença de que, dentro, era mais intenso e, misturado ao cheiro de fumo de cigarro, parecia sufocar. Pregados às paredes, diversos cartazes de procurados pela Justiça exibiam fotos de sujeitos mal-encarados, de aparência rústica e hostil. Achei graça disso: pareceu-me coisa de velho oeste norte-americano. As poucas mesas eram ocupadas por homens vestidos com trajes de roceiro, quase todos ostentando bigodes enormes que lhes cobriam grande parte do rosto. Taciturnos, fumavam e bebiam, olhando para o nada. Atrás do balcão, uma mulher gorda, de traços germânicos e cara ranzinza, olhava-me com curiosidade e se impacientava visivelmente à espera do meu pedido. “Café”. O líquido preto, fumegante, foi despejado diante de mim, num copo engordurado que já ocupava o balcão. Apesar de péssimo o café, o sabor amargo dos goles escaldantes descendo pela minha garganta fizeram com que eu me sentisse melhor.

Os nativos sentados às mesas não me descolavam os olhos, cutucavam-se uns aos outros, cochichavam e me indicavam com a ponta do queixo. Imaginei estarem impressionados com a minha aparência, tão estranha àquele mundo, minhas roupas desalinhadas e coloridas. Pensei em lhes dizer “Sou artista”, contudo, numa segunda reflexão, achei pouco provável que compreendessem o alcance desse termo e, então, para lhes mostrar alguma amistosidade, disse:

-Que frio, hein, rapaz?

Nada responderam. Voltei, portanto a engolir em silêncio a minha detestável bebida. Acendi meu cigarro e fiquei a ler os rótulos das garrafas empoeiradas na prateleira a minha frente.

Estava nisso quando, pelo canto dos olhos, percebi movimentos por trás das minhas costas. Alguns deles haviam se levantado de manso e pareciam já bem próximos a mim. Tive um mau pressentimento. Quando tentei me virar, um braço se enrolou em torno do meu pescoço e passou a me estrangular. Tentei me livrar, mas um outro segurou meus braços e os torceu para detrás das minhas costas, um terceiro imobilizou minhas pernas e, próximo ao meu rosto, um hálito recendendo à cachaça berrou: “Pegamo o desgraçado”.

Tudo aconteceu muito rápido. Tendo-me sem possibilidade de movimento, arrastaram-me para fora do bar. Gritavam e riam alto. Um milhar de pensamentos confusos me passou pela cabeça; todos apontavam uma única certeza: iriam me matar feito um bicho. Por quê? O braço que me estrangulava impedia-me de perguntar a algum deles, o estrondo das gargalhadas turvava o curso das minhas idéias e não as deixava esclarecer a mim mesmo a razão de tudo aquilo. Mal podia respirar.

Ao me transporem pela porta do estabelecimento, dirigi vistas ao lugar onde fora estacionada nossa Pampa, mas nem o carro nem meus companheiros lá estavam. No lugar, o que vi foi o velhinho barbado e o garoto, que ainda esfregava as mãos no pedaço de estopa, assistindo à cena com o mesmo olhar parvo. Ensaiei em direção a eles um grito de socorro e o que brotou da minha garganta comprimida foi um som abafado e quase inaudível. Sem me soltarem, depositaram-me sobre o banco traseiro de uma Brasília. Dois entraram comigo, sem em um único instante afrouxarem os braços que me prendiam, outros dois ocuparam os bancos dianteiros do carro, que logo se pôs em movimento.

Rodamos por tempo de minutos longos como horas. Quando eu tentava um movimento mais enérgico, tencionando me livrar dos meus raptores, um deles me dava um soco forte e seco no meio de uma das coxas, fazendo meus nervos se repuxarem e paralisando todo o meu corpo numa dor agonizante. Não havia como fugir.

Chegamos enfim ao nosso destino. O que numa primeira olhada imaginei ser uma casa abandonada, era, na verdade, uma delegacia de polícia. Reconheci após identificar, com muita dificuldade, o símbolo da instituição, já quase apagado na fachada do lugar. Senti certo alívio ao me saber encaminhado ao meio de policiais, porém, essa sensação logo se desvaneceu. Até que ponto poderia esperar justiça de tal órgão? Não era nem de longe capaz de adivinhar as leis que regiam tal cidade onde os habitantes recepcionavam seus visitantes com socos e violentos abraços. Dentro da delegacia, fui trocado de mãos, estava agora em poder de profissionais devidamente uniformizados que, após trocarem breves palavras com os que me trouxeram para ali (das quais não fui capaz de apreender uma sequer) e revirarem meus bolsos, passaram a me dar socos, pontapés e a me espancar as costelas com cacetetes enquanto me dirigiam ofensas.

Eu já estava prestes a desfalecer sob tantos golpes quando uma voz autoritária se sobressaiu entre todas as outras e fez cessar a tortura, ao que me ergueram para me depositarem com violência sobre uma cadeira, diante de uma mesa da qual, atrás, um velho, também em uniforme policial, brincava fazendo girar entre os dedos uma esferográfica. Compreendi ser este o delegado do distrito. O oficial ouvia o que diziam seus subordinados sem deixar de me fitar. Logo, de uma gaveta de arquivos, tirou uma grossa resma de papéis e a deitou diante de si, sobre a mesa. Folheou-a por algum tempo, detinha-se em um página ou outra, retesava as sobrancelhas e  torcia o canto da boca. Balançava a cabeça em movimentos lentos e, por vezes, emitia um “é…”, como quem muito filosoficamente se resigna a uma inevitável fatalidade.

Alisou uma página com a palma da mão, num gesto manso e, por fim, falou:

-Está em maus lençóis, seu Raimundo.

Raimundo? Raimundo!

Erraram o alvo!

Uma onda de bem-estar invadiu-me a alma. Haviam me confundido. Tudo não passara de um equívoco. Eu, além de não ser essezinho, desconhecia a existência de tal personagem, mas já imaginava o crápula e não duvidei de que fosse bem sim merecedor de agressões por parte dos cidadãos daquela cidade e sua força policial, o desgraçado. No momento até riria não fosse a dor aguda que cutucava meu estômago e fazia o meu rosto se distorcer numa careta. Respirei profundamente, engoli a saliva salgada com gosto de sangue e me reclinei um pouco à frente, espalmando uma mão sobre a mesa. Ia já explicar de forma sucinta e clara o absurdo da situação ao venerável agente da lei, quando um dos policiais prostrados ao meu lado me agraciou com um violentíssimo golpe de cacetete os dedos. Substituindo o coerente esclarecimento dos fatos, o que emiti foi um uivo que meus ouvidos titubearam em reconhecer como meu. Apertei minhas mãos contra o colo, senti meus ossos esmigalhados; a dor era lancinante. No mesmo momento, lágrimas me vieram aos olhos.

Do outro lado da mesa, o delegado mantinha-se imóvel, olhando-me de sobrecenho vazio. Voltou a deter-se nos papéis.

-Assaltos à mão armada, tráfico de drogas, homicídios… Teve uma vidinha bem agitada, filho. –sua voz era de uma calma assombrosa -Tão jovem e já vai se aposentar.

Balbuciei qualquer coisa. O delegado não me ouvia, tinha o telefone junto ao rosto e fazia ligação atrás de ligação. Comunicava que havia finalmente capturado o foragido Raimundo. Era posta em funcionamento a maquinaria burocrática legislativa.

Lentamente fui recuperando a calma. Era preciso mostrar ao homem da lei o quão se enganava e estender diante de sua compreensão o absurdo do mal entendido. Disse-lhe então que era músico em uma banda de rock e que viera ao seu estado para algumas apresentações em bares e clubes de algumas cidades, que um dos membros do grupo era policial, citei o seu nome, o meu nome, o nome da cidade onde eu residia, dos meus pais, citei nomes e mais nomes que eu bem via não serem em nada necessários para a elucidação do caso. À medida que frases se me afloravam à boca, percebia que se entrecruzavam, eu as cortava na metade e começava outra, gaguejava. Meus ouvidos distinguiam em meio ao trôpego discurso alguns choramingas “por favor” e “pelo amor de Deus”. Eu me afogava em soluços. Estava apavorado.

O delegado, sem denotar qualquer sinal de comiseração, hostilidade ou desprezo, mas antes, enfado, pôs diante da minha cara, convulsionada pelo pranto, a ficha criminal, repleta de números que acusavam faltas à lei, e, no canto superior direito do documento, a foto de um homem de aparência grosseira e carrancuda.

Meus olhos me traíam? Como podia ser possível? Dentro dos limites de uma 3X4, o que eu via era meu rosto! De traços rudes, uma boca franzida que acusava despeito, olhos frios. Todas estas características, que absolutamente não me pertenciam, numa escarninha conspiração se juntavam e curiosamente se moldavam no meu rosto. Esses detalhes, reunidos, davam ao conjunto um não sei quê de maligno e sinistro, no entanto, eu me reconhecia. Imaginei-me mirando um espelho após ter cometido a série de atrocidades de que o familiar estranho da foto era feitor e concluí que meu semblante, em tal caso, não poderia ser outro.

-Tem muita imaginação, filho. –e, sem erguer os olhos do papel que agora rabiscava –Leva pra cela.

Os brutamontes suspenderam-me pelos braços e se meteram comigo por curtos corredores sem que eu dissesse palavra. Estava completamente aturdido, abobalhado. Abriram grades pesadas de uma cela, empurraram-me para dentro e a fecharam. O clique da tranca sendo acionada às minhas costas soou como uma explosão dentro da minha cabeça. Avaliei as últimas cenas ocorridas, classifiquei as dores que me judiavam o corpo, alisei o peito do agasalho rosa que vestia, o rosto de Minnie, e apalpei o absurdo do fato de estar ali, trancafiado em uma cela de delegacia de uma cidade rural por crimes dos quais eu nunca fui capaz de me imaginar cometer e que, com efeito, nunca havia cometido. Nem ao menos sabia dizer se me sentia desesperado naquele momento. Queria me reconhecer apenas vítima de uma piada sem graça e de mau-gosto, mas o fio das minhas idéias se perdia, pensamentos se abortavam em minha mente e eu era incapaz de dar a esse quadro qualquer cor de racionalidade e coerência.

Eu não estava sozinho na cela. A um canto do pequeno quadrado, dois detentos me olhavam zombeteiros. Um deles, de pé, com uma perna apoiada no estrado de um catre e cotovelo escorado no parapeito de uma reduzida janela gradeada, fumava um cigarro, fedido, de palha, e sorria uma ironia articulada ao outro que, sentado sobre um colchão em frangalhos, arrancava, utilizando um canivete, lascas de um nó de fumo preto.

Fiquei alguns instantes olhando a pequena faca e me perguntando da estranheza do fato de o sujeito estar portando tal arma mesmo se achando numa cadeia. Este, o da faquinha, endereçava-me um riso cínico. Pareciam os dois contentes com a minha presença. Sentei-me sobre um catre instalado a um canto da cela. Pus a cabeça entre as mãos e mergulhei em meus pensamentos desordenados. Embora absorto em minhas idéias, podia ouvir meus companheiros trocarem entre si algumas palavras. Não conseguia entendê-las, mas inferi que falavam um híbrido de português com espanhol, completamente ininteligível para mim. O de pé dizia qualquer coisa nesse dialeto estranho e ria num chiado baixinho. Ria o outro também e os ruídos que saiam de suas bocas pareciam preencher toda a cela.

Mirei-os um tanto. Eram brasiguaios, gente nascida na fronteira entre Paraguai e Brasil. Já encontrara alguns destes em restaurantes à beira de estrada nesses últimos dias. Andavam em grupos de três ou quatro sem nunca deixarem adivinhar o que faziam, com o que trabalhavam, que intenções guardavam os seus gestos contidos, seus olhares desconfiados e seu linguajar mal articulado e confuso. Pareciam-me uma mistura indecisa de camponês e cigano, seres sem mundo próprio. Melhor ignorá-los.

De súbito, uma coisa me ocorreu: eu tinha direito a uma ligação telefônica. Poderia chamar um advogado. A lei me permitia uma defesa, evidentemente. Levantei-me e gritei por um policial. Expus-lhe sem muita convicção o meu desejo. Este foi ter com o seu superior, voltou e destrancou as grades para me levar até um telefone, fixo à parede de um corredor subjacente ao das celas. Lembrava-me de um primo, advogado criminalista com o qual eu trocara uma ou duas palavras em furtivos e raros encontros familiares, mas… e o número do seu telefone? Não o sabia. Receando deixar meus pais por demais preocupados, achei melhor ligar para a minha namorada, instruindo-a a entrar em contato com o primo. Assim fiz.

Quando Fernanda atendeu ao telefone, antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa, despejou-me ela uma descarga de perguntas: “Onde você está?”, “Por que não chegou ainda?”, “O que anda aprontando?”. Pedi para que ela me ouvisse por um segundo e disse pausadamente: “Fui preso…”, estava detido numa delegacia e precisava que ela contatasse Carlos, o advogado.

-Preso por quê? O que fez?

-Assalto à mão armada, tráfico de drogas… –não pude enumerar-lhe todos os itens que perfaziam a minha ficha criminal. Já ali pelo segundo atentado à lei, ela emitiu um sonzinho colérico e bateu com o fone na minha cara.

Devia saber que não poderia contar com a Fernanda.

Virei-me para o policial, que me vigiava de pé ao meu lado, e lhe disse com doçura que a linha havia caído. Como resposta ele me pegou pela gola da blusa e me arrastou de volta à cela, indiferente aos meus protestos gagos e chorosos. Novo clique da tranca sendo fechada, quatro metros quadrados de cela imunda e meus brasiguaios sorridentes. Estes, mais sorridentes que antes. Nem por isso mais simpáticos.

Sentei-me novamente sobre o catre. Pensava nos meus companheiros de banda que haviam sumido. Ao darem por minha falta, poderiam ter inquirido as pessoas que ocupavam o bar do posto de gasolina e, assim, facilmente terem se interado do que fora feito de mim. Logo estariam aqui. Trariam meus documentos, explicariam a policia toda a confusão.  Facilmente provariam que eu não passava de um pobre rapazote que estava no lugar e hora errados, que minha culpa se resumia apenas a ter nascido com a infame cara de um foragido da justiça. Tão simples.

Mas por que tanta demora?

-Cadê aqueles putos?-gritei, para regozijo e gargalhadas dos brasiguaios.

Devia ser mais ou menos onze da manhã. Uma fome descarada me judiava o estômago. Cogitei pedir almoço aos policiais, contudo, declinei desse desejo. Fazer refeição ali não seria me conformar à situação de presidiário? Eu podia muito bem resistir um pouco mais à fome e esperar com paciência os meus amigos que não deviam tardar a aparecer e me tirar dali. Não havia dúvida de que viriam, obviamente. Não iriam embora daquela maldita cidade situada em lugar algum sem mim. Esse pensamento me deixou mais calmo e me tornei mais senhor de mim mesmo. Já nem me sentia muito incomodado com os cochichos sibilantes dos meus companheiros de cela. Sabia que no futuro eu riria de tudo isso e acariciaria contente o pensamento de que esses malditos certamente ainda estariam apodrecendo nesta cela, fumando os seus cigarros fedorentos, sem a companhia de um injustiçado pela Justiça para que os divertisse, tendo só um ao outro, suas trocas cúmplices de olhares e sua estúpida língua sem pátria.

Pedi um cigarro, mesmo com certa arrogância, ao que estava de pé, escorado na janelinha gradeada (eles não se moviam de suas posições). Este levou aos lábios a pontinha que tinha entre os dedos, puxou um longo trago e jogou aos meus pés a bituca fedorenta.

-Toma lá, cabron!- foi o que acompanhou o seu movimento.

Olhei por um segundo o toco de fumo deitado sobre o chão da cela e, num gesto enfezado, esfarelei-o sob a sola do meu chinelo. Não me deixaria ser humilhado. O brasiguaio, vendo isso, arreganhou dentes podres e explodiu numa gargalhada que ecoou por toda a galeria de celas da delegacia.

Não me agastei por isso. Ou, antes, só um bocadinho. Minha mente era tomada por outras coisas. Confortava-me o pensamento de eu não ser Raimundo, o fora-da-lei. Uma bobagem, admito. Mas a certeza de não ser tal sujeito fazia-me pleno de regozijo moral. Às vezes. Na maior parte do tempo fui acometido de um saber-me incontestavelmente réprobo; uma culpa kafkiana que fugia de toda e qualquer razão. Devaneios como esses desenhavam estonteantes parábolas diante de meu espírito, por demais impressionável e de natureza tão sensível. Logo, peguei-me afagando lembranças de dias de liberdade: companhia prazerosa de amigos, mimado aconchego familiar, noites de festa regadas a rock n’ roll, sorriso de namorada… Despertava de súbito e dava com as paredes de tom ocre de meu féretro e meus surreais colegas de reclusão, que não deixavam um segundo sequer de me fitar. O contraste entre esses dois mundos era aterrador e triste; trazia-me uma melancolia exagerada em suas razões de não-ser e me tocar e eu me encolhia indefeso em meu interior, sentindo doloridas ferroadas de um inexplicável remorso do qual me via incapaz de medir a extensão, delinear margens e saber onde começava e findava.

No momento, não conseguia avaliar muito bem o ridículo de querer, ao sair do cárcere, tornar-me uma melhor pessoa. Nem por isso deixava de arquitetar em minha alma as mais variadas empresas, que teriam por finalidade fazer da minha vida, lá fora, uma irrepreensível coleção de bons gestos e atos. Beatifiquei-me nessa dor sem procedência que me trouxe o conhecimento de minha própria vileza. Canonizei, eu mesmo, em meus sofrimentos, o meu ser agora todo chagado pelos inclementes flagelos do destino. Abençoei de todo o coração os meus algozes, perdoando-lhes pela falta de ciência de seus atos contra mim praticados. Ungi-me dos mais belos desígnios e tomei para mim a firme decisão de me tornar, assim que descobrisse por quais vias, uma pessoa melhor.

Eu delirava. Se meditasse com mais tato sobre a coisa, reconhecer-me-ia incapaz de atinar bem pelo que seria uma melhor pessoa. Conquanto eu nunca houvesse sido necessariamente um exemplo dos mais positivos para a humanidade, também não fui dos mais dignos de censura e desaprovação (muito severa). Condenação jurídica e encarceramento ao menos, jamais. Entretanto, por menos sentido que houvesse em tudo isso, era a minha liberdade que se acabrunhava inconformada do lado de fora das grades.

Um dos brasiguaios emitiu um sonoro peido, o outro manejava ruidosamente o canivete no incessante ritual de picar seu nó de fumo, um alarido de vozes vindo de outras celas passeava pelo corredor. Meio deitado no catre e encostado à parede, eu balbuciava, bem sabia, monossílabos sem sentido enquanto em minha cabeça se agitava um turbilhão de idéias e imagens disformes que se misturavam entre si e compunham estranhas cenas onde eu me via trajando pardo, dedos em riste me apontando num tribunal, rostos enojados de desprezo, minha mãe que chorava, sonhos fulgurantes enterrados a sete palmos de toda e qualquer esperança de realização, uma luz que se distanciava até virar um pontinho minúsculo e, por fim, desaparecer, trancando-me em trevas imperscrutáveis…

Uma voz familiar me trouxe de volta à terra firme. Levantei-me de um pulo e aferrei minhas mãos às grades.

Eu estava  salvo!

Pelo corredor, vinha Marcelo com o delegado e um policial. Mas não tinham pressa. Não captei em seus movimentos qualquer sinal que denotasse urgência. Pelo contrário: apalpavam-se ombros, uns dos outros,   riam expansivos e palestravam animadamente sobre pertinências do trabalho que os três tinham em comum.

Até que se lembraram de mim.

-Confundido com um foragido da Justiça! Que embrulhada, hein, rapaz? Só você mesmo para se meter nessas coisas. –Marcelo dizia quase a se sufocar de tanto rir.

Não iriam me tirar dali? Travei entre os dentes um “por favor”…

-Em mais de trinta anos de profissão, nunca vi algo tão hilário. –O delegado se sentia deliciado.  Levava as mãos ao estômago e dobrava o tronco numa convulsão histérica de gargalhadas. –Abra a cela, Silva! Quem disse pra ti que ser sósia de um traficante homicida dá cadeia?- berrou fanfarrão ao policial. Este também cheio de dentes na cara.

Ria Marcelo, ria o delegado, o soldado. Os brasiguaios às minhas costas chegavam a esmurrar as paredes no frenesi de seu divertimento. Eu não ria. De boca ensangüentada, escoriações por todo o corpo, roupas em farrapos, sentia-me de uma pobre-coitadice sem tamanho. Da cela em que foi trancafiado um jovial rapaz, saiu um ser institucionalmente traumatizado, que agora ganhava tapinhas nas costas e gracejos sem conta.

-Se apavorou à-toa, filho. –dizia o delegado à guisa de consolo, e me apontava para o deleite dos demais. –Olha este garoto! Treme feito filhote de anu!

A comitiva risonha e eu íamos deixando a galeria de celas. O soldado, que se empoleirava em meus ombros, desmanchava-se em lágrimas extasiadas de júbilo cômico. Ao passar pelo saguão da delegacia, novas risadas, desta vez do resto do batalhão policial. Naquele arrebatamento coletivo de alegria, imaginei que tirariam fotos comigo, todos eles.

Desci mancando a escadinha na fachada daquele covil de hienas. Tinha uma perna inchada e sentia fraturadas algumas costelas. O delegado em pessoa, muito gentil e prestativo, auxiliou-me a transpor os poucos degraus. Na Pampa, Maurício ainda dormia com a cara colada ao vidro da porta. Joguei o seu corpo mole para um lado e ajeitei o meu, dolorido e machucado, sobre o assento. Às portas da delegacia, todo o efetivo policial acenava em despedida aos seus novos amigos paulistas. Marcelo ofereceu-me um cigarro e passou a me explicar, intercalando frases a risinhos, como foi que nos desencontramos no posto de gasolina, o que lhes contaram os nativos do boteco, descobrindo-me, então, preso no distrito policial da cidade. No rádio tocava “Paloma” e os acordes obscenamente melancólicos dessa música paraguaia soavam ainda mais tristes.

-Por um momento eu fiquei preocupado contigo- Marcelo enxugou dos olhos as últimas lágrimas e girou a chave da ignição. Partimos dali.

J. Menezes

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3 Comments

  1. Gostei muito do seu conto. Vc tem elegância literária. Abs

  2. Uau.. Impecável

  3. Junior?
    a moça do livro do ônibus, ah, livro por sinal que tem sim Machado de Assis, o livro parte de 1850, tá explicado.
    Vou visitar seu blog com calma, ler, falamos!


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